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23 março 2008

Relações interdisciplinares

Este sou eu, Márcio, um pobre rapaz que ama perdidamente uma garota que nem repara em mim. Sou daqueles garotos estudiosos, que todos teimam em denominar CDF. Realmente sou um, mas não tenho como evitar, está no meu sangue.


Quando estou com ela, tudo fica diferente. Ela falou comigo por duas vezes (e eu lembro-me muito bem delas). Na primeira, ela me pediu gentilmente a resposta do exercício 78 de matemática. Já na segunda, ela me ajudou a reunir o material que eu havia derrubado da minha carteira.


A beleza dessa garota deixa meu sistema nervoso bastante afetado, reagindo ao mínimo contato e deixando-me apreensivo. Eu sei muito bem que nunca possuí tal sentimento por ninguém em toda a minha vida. Quando ouço sua voz, a memória me leva às mais belas cantigas de amor, cantadas pelos trovadores.


É pura física! Os opostos se atraem, ou pelo menos tentam, desde que haja uma força de atração suficientemente forte para romper a inércia dos corpos.


É também pura química! Tudo não passa de compostos e ligações, de ácidos e bases, todos agindo ao mesmo tempo e causando um turbilhão de emoções que me deixam ansioso, nervoso, alucinado, alienado. É uma questão simples que pode ser resolvida com uma também simples regra de três, onde o meu empenho será diretamente proporcional à minha vitória (assim eu espero).


Espere um pouco que aí vem ela... passou direto, mas sei que ela conseguiu me detectar, sentado nesse canto, com a sua visão periférica. Ela passa e me deixa fora do meu juízo normal. Não raciocino direito, não elaboro problemas, nem consigo lembrar se a esquistossomose é causada por um platelminto ou se é causada por um nematelminto.


Como diria Gandhi: “Acreditar em lago e não o viver é desonesto”. Resolvi tomar uma atitude drástica. Vou falar com ela. Já está decidido. Vou falar tudo o que penso e que sinto em relação a ela.


É impossível fazer isso! Meus sistemas não estão preparados para funcionar sobre tamanha pressão. Os meus sistemas digestivo e respiratório ficam totalmente fora de controle e é melhor nem comentar sobre os meus sistemas nervoso e reprodutor.


Mas vou até lá e vou falar. Não posso ser assim tão incompetente a ponto de não conseguir fazer isso. Eu juro que irei tentar, por todo esse amor reprimido no interior da minha pobre massa encefálica e que luta incessantemente para libertar-se das correntes que o mantém como meu escravo.


E agora me encontro em um caminho totalmente bifurcado. De um lado está o meu caminho seguro, o qual eu conheço muito bem, pois se trata da minha história passada. O outro lado é o lado obscuro, representando o caminho do medo do desconhecido e do recuo diante de uma adversidade. Não sei se possuo ousadia suficiente para enfrentar este último.


Tento resolver o problema utilizando derivadas, logaritmos, limites e até mesmo por lógica. Nenhuma das alternativas me deu uma resposta concreta sobre como se deve proceder diante de tal situação.


Levanto-me! Caminho de cabeça baixa! Caio! Levanto e observo o que aconteceu. Esbarrei sem querer em minha amada e a fiz cair. Nunca pensei que a machucaria, mas esse dia chegou antes que eu pudesse prever.


Creio não ter acontecido nada e prontifico-me a ajudá-la. Nós dois saímos conversando e o assunto acabou fluindo como eu já ensaiara muitas vezes dentro da minha própria mente, já pensando em todas as possibilidades de recusa e arquitetando argumentos coerentes para rebatê-los.


Quando eu menos esperava, já estava falando sobre os meus sentimentos, expondo tudo aquilo que eu decidira guardar para sempre nas gavetas mais profundas da minha memória.
Percebi que a força de atração entre os corpos era grande, mas existia uma outra força, que era oposta ao movimento, impedindo que ela viesse parar em meus braços abertos. Ela foi muito gentil comigo e mal pude acreditar quando ela disse que pensaria no caso.


É melhor ter uma chance do que perder todas de uma só vez. Não agüentei e fui até ela para saber qual seria a resposta para o meu intrincado problema. Pela graça de Descartes que a resultante de tudo, representada no plano cartesiano, foi uma reta completamente positiva.


Ao primeiro toque, a adrenalina passava acelerada pelo meu corpo. Os olhos se fecharam e faltam-me palavras para descrever o que aconteceu depois. Faltam equações e fórmulas, perguntas e respostas. Nem Sigmund Freud é capaz de explicar o que se passou comigo naquele momento. Isso é algo que nem a ciência, com toda a sua magnitude, é capaz de explicar. Passou uma semana e eu nunca mais me encontrei com o meu ex-amor. Ela mudou-se para outro colégio. O meu referencial desapareceu e eu fiquei temporariamente desnorteado. Mas a vida continua, apesar dos infortúnios, e é melhor sempre guardar boas recordações, pois a qualquer momento um referencial pode ser tirado do seu mundo, mas você deve permanecer sempre estável, devido as suas experiências e boas recordações daqueles que se foram.

14 fevereiro 2008

Tributo aos últimos três anos

Sabe quando você está perto de concluir algum projeto de vida? Sabe quando você se dedica por anos para fazer algo e observa, com um misto de alegria e agonia, que tudo está acabando? Eu estou assim hoje. Sem rumo, sem saber para qual direção seguir quando tudo estiver finalizado. Sem chão...
Eu simplesmente não queria ver o fim. Na verdade, eu queria sim, mas vou sentir muita falta de tudo. A pressão da entrega de um relatório no momento certo, a ansiedade antes de uma apresentação importante e, de repente, tudo isso se esvai!
E o que eu vou fazer depois? Acordar de manhã e seguir minha vida normalmente? Não! Não há mais nada a ser feito. Aquela rotina, que foi seguida a risca por um bom tempo, não existe mais. Acordarei na segunda de manhã e vou pensar: o que eu tenho para fazer? Assistir televisão, ler um livro?
Chega! Se eu pudesse, voltava atrás e faria tudo de novo. Esses últimos tempos foram, na falta de uma definição melhor, perfeitos. Por mais que eu tenha passado por algumas dificuldades, tudo valeu a pena. Sério! Reclamei? Sim, e muito! Passei noites em claro, cheguei horas antes de compromissos, fiz muita reuniões para, com uma simplicidade absurda, tudo acabar.
Meus amigos... é deles que eu vou sentir mais falta. Tenho certeza que vou perder contato com a maioria deles. Alguns eu faço até questão de eliminar. Mas o meu sentimento com relação à grande maioria é outro. Fiz amigos de verdade, construí uma família. Posso dizer que agora eu escolhi de verdade os meus irmãos. Se eu pudesse, carregava todos na minha mochila, mas não dá. Cada um vai seguir o seu caminho agora... novos horizontes e perspectivas.
E espero que possamos prosseguir juntos... esses temores sempre me passam pela cabeça. Enquanto isso acontece, continuo escrevendo. E, com lágrimas nos olhos, termino esse texto, sabendo que sentirei muita saudade de tudo que vivi por aqui...

06 fevereiro 2008

Tentações e divagações de um homem casado

Sofá da minha casa, não sei que dia é hoje, 2006

Sinceramente eu não sei porque fui me casar. Minha vida mudou muito, e mudou para pior, isso você pode ter certeza. Eu vivia tão bem quando ainda não tinha sido preso na gaiola. Era só farra, diversão, mulherada, mas agora eu não posso. A Aninha fica de olho, nunca vi mulher mais ciumenta do que ela. Toda vez que eu chego em casa é um problema e, para completar, ela não me satisfaz mais na cama.

Assim fica difícil de suportar. Pensei que quando eu casasse minha vida ia se tornar mais tranqüila, com uma esposa ao meu lado, mas não! Virou um inferno. E não estou brincando. A mulher só pode ter feito um pacto com o tinhoso. Não tem condições. Mas dizem que cavalo dado não se olha os dentes, e como ela foi a única que quis casar comigo...

Hoje ela só sabe reclamar, reclamar e reclamar. Não faz mais outra coisa. Aliás, faz sim, nunca vi mulher gostar tanto de mexer na cozinha como ela. E cada vez que eu olho para ela de avental me dá um tesão, mas não posso fazer nada. Acha que eu consigo tirar ela de lá? É a coisa mais improvável do mundo. Parece que ela ama mais aquele pano de prato que os meus braços quentes e confortáveis. Aquele fogão deve ser o máximo. Um dia eu vou tentar fazer alguma coisa com o fogão, quem sabe ele me dá mais atenção.

O pior de tudo é passar nas ruas e pensar: “Nossa, que gatinha!” e não poder ir atrás dela para exercer o meu papel de reprodutor nato. Já disse e volto a repetir, não sei porque casei. O casamento é a pior coisa que o ser humano podia ter inventado. Se eu pudesse voltar no tempo, eu descobriria quem foi o infeliz que inventou essa baboseira e o colocaria em uma forca sob a acusação de perigo público.

E olha que nem escritor eu sou. Nem gostar de escrever eu gosto, mas a infeliz resolveu ir para a cama (dormir, às sete e meia da noite) e eu fiquei aqui sozinho. Tenho que me divertir com alguma coisa e achei esse pedaço de papel e uma caneta. Quem sabe isso não vai parar em alguma revista famosa? É, seria muito legal! Eu faria questão de colocar o meu nome em letras bem grandes no final do texto, só para ela saber o quanto eu a amo e a quero bem...

Maldito momento que meu pai falou para eu casar. Disse que eu já estava ficando velho e mulherengo demais, que nenhuma mulher ia me querer, que eu iria acabar ficando para titio. E o drama continuou por meses e meses até que eu conheci a Ana.

Ela era uma menina linda, no auge dos seus trinta anos. Cabelos maravilhosamente escovados e sedosos, belos olhos claros, dentes brilhantes e uma carinha de anjo.

Para que eu fui confiar na minha intuição...

A gente se casou depois de quatro meses de namoro. Foi tudo muito rápido, eu admito, mas não deu para evitar. A mulher estava fazendo jogo duro, disse que sexo era só depois do casamento e ela queria casar logo. Eu, um pobre garoto (de trinta e seis anos), completamente apaixonado, resolvi entrar no jogo dela. E esse foi o meu maior erro.

Logo na nossa tão esperada noite de núpcias, ela teve a capacidade de virar para o lado e dormir, bem na hora que nós entramos no quarto. Isso é coisa que se faça com um homem no cio? Ela me deixou na vontade e eu tive que me contentar sozinho. Foi triste ver ela dormindo no nosso leito de amor enquanto eu esperava ansioso que ela acordasse e pudéssemos, enfim, consumar nosso casamento.

Mas o primeiro susto foi quando ela finalmente despertou de seu sono profundo. Era melhor que tivesse permanecido dormindo. Meu deus, aquela foi a cena mais deprimente de toda a minha história com as mulheres. Quando ela virou para o meu lado, eu descobri porque ela queria casar tão desesperadamente.

Lembra-se de que eu disse que ela tinha cabelos maravilhosos? Esquece, era tudo obra de um belo cabeleireiro. O cabelo dela se parecia com as cerdas de uma vassoura piaçava. Os olhos eram lentes de contato, ela tinha um dente meio podre e aquela carinha de anjo era pura enganação. As primeiras palavras que ela me disse foram: “Cadê meu café?”.

E aí começou meu suplício. A mulher foi, e ainda é, insuportável. Ela consegue me atormentar pela manhã, pela tarde e principalmente à noite. Nunca pensei que iria ouvir tantas desculpa esfarrapadas diferentes para uma mulher não fazer sexo com o marido. Ouvi de tudo, desde o tradicional “ai amor, eu tô com dor de cabeça” até “o padre me proibiu de fazer qualquer coisa com você essa noite, eu vou entrar em quarentena pelas almas carente do Tibet”.

E que raios o Tibet tinha a ver com a historia? Eu moro é no Brasil, país tropical, as pessoas são mais afetivas, mais calientes. É tudo uma questão de gosto. Tem mulheres para todos os estilos de homens. Tem altas e baixas, brancas, morenas e mulatas, loiras, morenas e ruivas, magrinhas, gordinhas e gordonas, tímidas, fogosas e dançarinas de funk, católicas, protestantes e adeptas do pecado. Tem para todo mundo e todos ficam satisfeitos.

Menos eu, que casei com a mulher errada. Eu consigo contar nos dedos das mãos quantas vezes nós fomos para a cama nesses seis meses de casamento. Ou melhor, eu posso contar nos dedos da minha mão esquerda. E eu acabo ficando louco, louco de desejo acumulado. Isso não se faz com ninguém, mesmo que a pessoa tenha pregado chiclete na cruz e depois jogado uma pedrinha.

E eu acabo tendo que me satisfazer em outros lugares, como o banheiro, por exemplo, já que nenhuma outra mulher quer saber de mim. Eu não sei o que acontece, mas acho que é por causa da aliança que resolver grudar no meu dedo. Pois é, tinha esquecido de comentar esse pequeno incidente. A aliança que nós compramos para o casamento ficou pequena demais para o meu dedo (claro que tinha que ficar, foi ela que comprou. Aposto que fez de propósito). Ela cismou que tinha que colocá-la de qualquer jeito, e acabou colocando. Só que agora ela não quer sair mais.

Esse anelzinho dourado vagabundo é um repelente de mulher. Parece que elas se afastam apenas com o brilho que ele emana. É incrível! Por mais que eu tente, eu não consegui arrumar nenhuma mulher nesses últimos meses. Estou começando a achar que o problema é comigo, que eu estou perdendo aquele jeito malandro que só o brasileiro tem para pegar mulher. Tudo bem que eu não sou mais um jovem de vinte anos (e como eu era bonitão, ainda sou, mas eu já fui melhor), mas ainda tenho fôlego para várias de uma só vez.

O pior de tudo é ter que conviver com o meu emprego. Sou enfermeiro. E você não sabe o quanto me deixa louco uma mulher vestida com aquele jaleco de médico, com aquela cruz colorida no chapéu. Mas ela tem que estar vestida só com o jaleco, mais nada por baixo. Nossa! Você não sabe como eu estou enquanto escrevo isso.

Olho para a minha esposa deitada na cama e fico esperando, na iminência de que ela acorde e venha satisfazer essa minha fantasia. Mas é melhor eu acordar. O dia que ela fizer isso, eu posso pular no meio de uma avenida movimentada. Tudo não passa de um sonho. Aliás, com ela tudo não passou de um sonho. A única coisa que eu posso fazer é sentar aqui na sala e imaginar. Imaginar aquelas coxas maravilhosas em contato com a minha pela. Aqueles dois corpos convertidos em um só por um momento de puro prazer.

É mais fácil isso ocorrer com a faxineira do hospital do que com a minha esposa. Pensando bem, até que a faxineira não é de se jogar fora. Desprezando aquela cara de cachorro pequinês, aquele jeito de andar que parece um pato e aquela barriga meio saliente, eu acho que eu até toparia ir para o armário de vassouras com ela. Seria melhor do que tudo que já rolou na minha cama até hoje.

Não, pára com isso! A faxineira não, mas quem sabe com aquela paciente do 307? Ela é muito bonita e acho que dá bola para mim. Será que eu entro no quarto dela despistadamente para medir a pressão e fico lá para aproveitar um pouco da situação? Deixa eu pensar... qual o problema de saúde que ela tem? Nossa, nem isso me ajuda. Ela tem uma cirurgia marcada para amanhã, para mexer no coração. Será que nem para isso eu dou sorte? Nem para pegar uma inválida na cama eu sirvo? Se ela morrer a culpa vai cair em cima de mim. Vão me descobrir e eu estou perdido.

Pensando melhor, ela tem uma filha que tem cara de safadinha. Qual era mesmo o nome dela?

Sabrina. Isso! Era Sabrina o nome da infeliz! Ela sim daria um bom aperitivo antes da mãe. É novinha, deve estar aprendendo agora. É ela mesma! Amanhã eu vou falar com ela. Que a dona Flávia me espere para a consulta, mas eu vou ter que atrasar. Tenho coisas mais importantes para fazer.

Por falar nisso, já são quase dez horas da noite e a Ana até agora não mexeu no seu lado da cama. Será que ela morreu? Não, seria bom demais se isso acontecesse. Eu ia ficar viúvo e metade, ou melhor, todos os meus problemas iriam acabar. Minha vida ia melhorar, eu ia poder pegar a Sabrina sem peso na consciência.

Ia ser mais fácil. Só teria o trabalho de colocar a defunta no caixão e partiria para a gandaia. Eu ia voltar aos meus tempos áureos, onde eu ficava com seis na mesma noite e ainda levava duas para a cama. Eu era quase um animal. Acho que ainda sou, só está faltando um pouquinho de treino, mas isso se resolve facilmente. Preciso apenas de uma companhia.

Nossa, fiquei escrevendo por tanto tempo que acabei ficando com fome. Vou levar este papel para a cozinha. Depois essa louca acorda e vê o que eu escrevi. Se bem que ia ser uma coisa boa. Ela pediria o divórcio e me deixaria em paz. Pensando melhor, a cachorra é tão sacana que acabaria me deixando casado com ela só para ter o gostinho de me fazer sofrer.

Bem que ela podia levantar e fazer alguma coisa para eu comer. Para isso ela serve, e muito bem. Aquele ravióli maravilhoso, que só ela sabe fazer, me deixa com água na boca. E aquela lasanha então, meu Deus, é quase um banquete dos céus.

Será que ela deixou alguma coisa na geladeira?

Hum, torta de frango com bacon! Que delícia! Como ela cozinha bem. É uma mulher abençoada mesmo. Para ter mãos de fada para a cozinha só pode ser abençoada. É por isso que eu amo essa mulher. E ainda perguntam porque eu ainda estou casado depois de tanto tempo aturando aquela figura.

Eu nunca consigo responder, mas sempre me vem á cabeça um momento de surpresa. Ele ainda não veio, mas a esperança é a última que morre. Quem sabe um dia ela faça algo que me agrade. É só esperar e conferir o resultado, mas espero que eu não me arrependa depois.

Agora eu vou voltar para o quarto porque já estou alimentado (em partes) e é melhor dormir um pouco...

Mas, espere um pouco. Será que o que eu vejo é verdade? Minha mulher saiu da cama e... meu Deus!  

Desculpa caderno, mas me dê licença pois eu acho que vi uma bela enfermeira só de jaleco e calcinha vermelha, pronta para ser consumida pelo desejo armazenado.

27 janeiro 2008

Reflexões de um frango

Milho. Por que sempre nos dão essa coisa para comer? Nunca vi comida pior. É um troço amarelo, duro, sem sal e com gosto estranho. Deve ser por isso que eu estou emagrecendo.

Graças a Deus que isso está acontecendo, mas eu acho que estou ficando anoréxico... aquele pneuzinho que está sobressalente tem que sumir. Meus amigos me dizem que eu estou em forma, mas a minha barriga tem que ficar de tanquinho. É para isso que eu tô malhando.

Para isso e para ver aquela franguinha gostosa fazendo abdominais, malhando as coxas, as asas, aquela bundinha... nossa! Ela me deixa completamente louco! Quando coloca aquela calça coladinha então? Minhas penas ficam todas eriçadas.

Só que eu tenho que tomar cuidado. Se eriçar demais, as penas começam a cair. É a idade chegando. Tô quase virando um galo, mas a calvície resolveu aparecer mais cedo para me atormentar. E se eu ficar igual àqueles frangos horrorosos de pescoço pelado? Nem cogito essa idéia.

Eles são muito feios. Não sei como fazem para conseguir as melhores frangas da granja. Se eu fosse o dono desse lugar, eu ia comer todos de uma só vez. Deve ser mais fácil para depenar. Eles têm menos penas...

Eles só devem conquistar todas por causa do excesso de testosterona. Aliás, frango tem testosterona? É, imagine só: um frangão bombado, com a minha tão sonhada barriga de tanque e aquele monte de galinhas ao seu redor.

E eu aqui, virgem. Vai ver porque ainda sou um frango. Mas já tive muitas oportunidades. Só que eu franguei. Irônico, não é? Eu que fui criado para ser o garanhão reprodutor da granja... na verdade, eu acho que esse é um termo para cavalos, mas deixa para lá.

Um das vezes foi quando eu estava tranqüilamente empoleirado no pé de goiaba e ela passou se insinuando. Levantou as penas da perna e mostrou aquela calcinha vermelha de renda, que servia apenas para dar uma cor ao material, de tão transparente que era.

Na primeira bobeada dela eu saí pela tangente. Aquela safada não me merecia... tudo bem, eu franguei mesmo, não agüentei toda aquela pressão. É melhor fugir que broxar. É ou não é? Fere menos o moral.

Mas acho que eu estou estranho por causa desse calor que está fazendo. Dizem que é por causa do aquecimento global. Aliás, não se fala em outra coisa no momento. Já está ficando chato: “As calotas polares estão derretendo”, “O mar vai invadir ilhas no Pacífico”. E daí? Isso é realmente um saco.

O pior são as medida que o granjeiro tomou para diminuir a emissão de dióxido de carbono na atmosfera. Olha, falei até bonito! É o efeito “Informações inúteis em excesso”. O mais revoltante é que eles proibiram o banho quente. Imaginem só, proibir o banho quente só porque ele era aquecido pela queima do carvão? Assim não dá! Vou ter que ligar para o IBAMA.

É, não seria má idéia. Será que os caras do IBAMA me levam para um lugar melhor? Um lugar onde existam galinhas selvagens (adoro as selvagens) e onde haja sombra para eu ficar deitado o dia inteiro.

É o meu sonho! Passar o dia inteiro deitado. Ser o “garanhão reprodutor” tem lá os seus defeitos. Nós temos que passar por um treinamento rígido e forçado. Forçado mesmo! Uma vez tive que cantar uma galinha gorda, cheia de celulite. E ela pensa até hoje que eu gosto dela...

Celulite não dá! Eu sei que todas as galinhas têm, mas não custa nada fazer uma massagem linfática ou algo do gênero para diminuir um pouco. Ia ser melhor e elas não tivessem. Como isso é impossível, eu me contento com as que têm pouco.

Se bem que não estou muito apto a ficar escolhendo. A primeira que passar eu vou ter que... que... é melhor não falar nada. Aí vem a gorda com celulite.

Ufa! Ainda bem que ela passou direto. Não estava nem um pouco a fim de falar com ela. Tomara que ela vire uma torta... brincadeira! Espero mesmo é que se vire frango com quiabo, ou melhor, galinha com quiabo. E, com aquele tanto de banha e celulite, o quiabo ia ficar mais babento do que o normal.

E dizem que a dona da granja cozinha muito bem. Eu é que não quero experimentar. Quando algum ser vivo entra naquela cozinha, sai de lá mais morto que... mais morto que... um frango decapitado.

Isso mesmo, como um frango decapitado! Pensando bem, quando cortam a cabeça de um frango, ele permanece vivo? Pelo menos essa é a lenda. Mas nunca nenhum frango sem cabeça voltou para contar como é a vida após a decapitação.

Pensando melhor, será que existe vida após a panela de barro? Vida de frango é tudo igual. A gente sai do ovo, vira pintinho, cresce, come, engorda, faz mais pintinhos e depois é comido. É uma emoção a cada dia. Você pode ser escolhido a qualquer hora e nem tem tempo para se despedir de sua família. É quase uma roleta-russa. O primeiro pescoço que parar diante da faca sente ela sendo enfiada.

E eu já vi isso acontecendo muitas vezes. Espero que quando chegar a minha vez seja bem rápido e indolor. Mas receber uma facada deve doer muito. Deve ser melhor ser eletrocutado.

Pois é, que tragam a cadeira elétrica para cá. E a primeira a ser queimada vai ser a gorda com celulite. Olha só, ela é muito cara de pau. Ela está voltando, rebolando aquela camada adiposa que ela insiste em chamar de bunda.

Argh! Ela piscou para mim. Não vou nem dormir essa noite. Ela é um terror. Até esqueci o que estava falando. Aliás, onde eu estava mesmo? Ah, é claro... Milho. Por que sempre nos dão essa coisa para comer?

13 janeiro 2008

Resoluções de fim de ano

Tédio, 31 de dezembro de um ano qualquer

Todo final de ano é a mesma coisa. A família inteira resolve aparecer aqui em casa, todo mundo se reúne de baixo de uma árvore e comemoram o Natal. E, menos de uma semana depois, todo mundo aparece de novo para soltar fogos e celebrara a entrada do próximo ano... que chatice!

Eu admito que eu era um dos primeiros a correr para arrumar a mesa para a ceia, um dos primeiros a correr até o pinheiro para receber. Mas esse ano está tudo muito estranho. Aliás, eu estou estranho. Sem clima para festas, se é que alguém me entende.

Os parentes estão todos lá fora, assando um churrasco, esperando ansiosamente a chegada da meia noite para, juntos, celebrarem uma nova era... falsidade. Eles se abraçam e desejam os “mais sinceros” votos de paz e felicidade.

E isso tudo com a simples esperança de que a mudança de um dia para o outro possa alterar suas vidas. “Tudo vai ser diferente nesse ano que está chegando”, dizem eles. Até parece! Um dia depois, todos vão voltar para suas rotinas medíocres, para as suas vidinhas sem graça, repletas de promessas de fim de ano que nunca serão cumpridas. “Vou emagrecer”. “Vou começar a malhar”. “Vou arrumar um bom partido”... hipocrisia pura.

Prefiro me isolar em meu quarto. Não há como compactuar com tamanha felicidade sem sentido. Não consigo sorrir, por exemplo, para minha prima que, há apenas dois meses, divorciou-se do marido só porque ele perdeu o emprego. Não consigo sorrir para aquele tio que espancou meu primo porque estava bêbado. E estão todos festejando, como se nada tivesse acontecido.

Em que vez de ficar comendo carne, todos deviam parar e refletir sobre o ano que passou. No que fizeram. Na imagem que passaram. Nas pessoas que magoaram. Naqueles em que pisaram para atingir seus objetivos fúteis e egoístas. Não, eu não fui nenhum santo no ano que está acabando. Matei, menti, destruí amizades e sonhos... e acabei com minha vida!

E é por isso que eu estou aqui refletindo. Se a famosa lista dos bonzinhos existisse, tenho certeza que eu não receberia presentes. Talvez esse tenha sido o pior ano de todos, o pior! Desgraças em série, escolhas erradas, falsas amizades e pessoas querendo passar a perna em outras.

Matei... por vingança. Ele tirou a vida da garota que eu amava. Sem explicações. Quatro tiros na cabeça... fiz o mesmo com ele.

Menti. Menti para livrar a minha cara das garras da polícia, que estava atrás de mim por esse crime.

Destruí amizades. Entreguei mus amigos em meu lugar. Era a coisa mais fácil a ser feita. A história foi meticulosamente ensaiada. Havia um papel de honra para todos eles. Foram presos, torturados e mortos na prisão.

Destruí sonhos. Muitas famílias vão passar o pior final de ano de suas vidas por minha causa. Não vou dizer que fiz tudo sem pensar porque seria a maior mentira de uma série de muitas. Pensei, calculei cada passo que eu ia dar. Nunca andei com uma venda. Estava tudo arranjado.

Não pense que não me arrependo! É por isso que estou aqui. Escrevendo para desabafar sobre as atrocidades que eu cometi. Sentindo o maior peso no coração que eu jamais senti. Meus sentimentos giram e colidem dentro da minha cabeça...

Eu simplesmente não vou mais agüentar. Esta carta é destinada para aquele parente festeiro que, por um acaso qualquer, entre nesse quarto e encontre meu corpo. Quero que saiba que essa coisa que jaz estática no chão é um homem fraco, que não soube enfrentar seus problemas e, no fim, resolveu optar pelo caminho mais simples...

Enquanto isso, eu fico aqui sentado. Sentado, olhando para o frasco de veneno que vai me levar para longe daqui. Para longe desse mundo..

Desculpem por tudo!